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Viajar: um híbrido de mudança e permanência

Foto do escritor: Todos os Cantos
Todos os Cantos
7 de mai. de 2019
3 min de leitura

Texto escrito por Sérgio Adas, grande educador e autor da Coleção Expedições Geográficas e que inspirou na criação da TODOS OS CANTOS.


Ainda estou por traçar em um mapa do Brasil as cidades em que estive ministrando, enquanto educador e escritor, palestras para professores e alunos da Educação Básica, em escolas públicas. Há anos viajo a trabalho, em meses sucessivos e concentrados. Nessas ocasiões, nos aviões passo a me sentir parte da tripulação em razão da frequência dos vôos, aterrissando aqui e acolá em estados diferentes, para em seguida percorrer outros trechos de asfalto ou terra de modo a iniciar as minhas “expedições” de 3 a 4 palestras diárias em diferentes lugares e cidades. Decerto, os pontos a traçar no mapa não diriam muito sobre as experiências vividas, mas ao menos seriam vestígios que me ajudariam a rememorá-las de vez em quando, como marcos da memória, uma forma de resistir ao tempo que tudo apaga.

Mas, de fato, para além do ritmo frenético de trabalho e da quantidade de lugares, algo que prezo muito quando estou em viagem é estar atento à serenidade interior, pois que isso ajuda a estar em sintonia e desperto perante as oportunidades e a qualidade das mudanças pessoais que qualquer deslocamento coloca em marcha. Viajar é para mim, em essência, um híbrido de mudança e permanência identitária provocado por um “desenraizamento” que requer sermos quem somos, mas ao mesmo tempo nos permite ampliar a nossa visão de mundo e das gentes, relativizar valores e crenças, descontruir preconceitos — aliás, algo fundamental nos dias de hoje em que parece prevalecer a intolerância, a não aceitação das diferenças potencializadas pelas “bolhas” de informação que mais afastam do que aproximam pessoas e ideias. Para que seja uma experiência transformadora, viajar exige aceitação e valorização do outro e das diferenças, além de humildade para reconhecer-se aprendiz na humanidade que nos une. Enfim, viajar é um permanente exercício de compreensão frente aos nossos limites, pois, afinal, o mundo sempre é mais vasto e surpreendente quando saímos de nossa “zona de conforto” ou nos distanciamos do que nos é familiar. Isso, sem dúvida e por outro lado, gera angústias e medos perante o desconhecido, uma constante. Entrementes, o saldo é positivo quando nos abrimos para as incertezas, o que decerto demanda espiritualidade, algo sempre em construção.

Afora as viagens a trabalho, por meio de livros e das mídias sociais nos últimos anos venho pesquisando viajantes brasileiros que se lançaram para a travessia da América ou ao redor do mundo, muitos deles nômades digitais. Sobretudo nos finais de semana, passo horas aprendendo e me inspirando na companhia deles, lendo seus livros de expedições realizadas de carro ou de bicicleta, o que é sem dúvida um modo de viajar sem sair de casa. Tal prática se tornou um hábito, um lenitivo após a semana ou cotidiano de trabalho. Fico contente quando encontro em seus relatos o testemunho de que “há mais pessoas boas do que ruins no mundo”, pois ele apenas confirma minhas impressões colhidas desde que viajo.

(... em breve a continuação do texto com entrevista exclusiva).


Sérgio Adas - Professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, na FFCLRP-USP (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto) - DEDIC (Departamento de Educação, Informação e Comunicação). É bacharel e licenciado em Filosofia (FFLCH-USP e FE-USP), Doutor em Geografia Humana (FFLCH-USP) e Pós-doutorado em Educação (FE-USP). É autor e co-autor de obras didáticas de Geografia publicadas pela Editora Moderna, entre elas a Coleção Expedições geográficas, destinada aos alunos do Ensino Fundamental – Anos Finais.

 
 
 

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