QUARENTENA - UM DIÁRIO DE BORDO


(Farol do Fim do Mundo – Canal de Beagle – Ushuaia – Patagônia Argentina)
Tenho ficado em casa e, por mais confortável que possa ser este lugar, acabo sentindo falta de algumas coisas como coerência e equilíbrio, por exemplo.
Mas há outras coisas que abundam por aqui: o medo da morte é uma dessas abundantes indesejadas. Estou preocupado com essa onda atual de se achar que “tudo está bem”. Existe uma onda de “otimismo forçado” que pretende nos alijar da realidade em que estamos vivendo. Não pretendo posar de pessimista, mas acho importante saber aquilatar a situação.
Recentemente, li uma entrevista com a Monja Cohen em que ela disse: “A situação é raríssima, não podemos agir como se estivesse tudo bem. Não é errado, não é feio sentir medo (...). Se não houvesse medo, a gente não se cuidaria.”. Concordo.
Para aproveitar o tempo, andei lendo o filosofo cristão Kierkegaard. E, dele, faço uso de um pensamento que me parece corresponder bem ao momento atual:
“Somos orientados a não ceder à negatividade, ao pessimismo, ao desespero. Qualquer pessoa que venha de um mundo em que a positividade e o otimismo sejam cultuados como a chave para uma boa vida terá uma grande surpresa. (...) Quantas vezes, não passamos por momentos que parecem o fim do mundo para nós, quando, desolados, temos enorme dificuldade em ouvir que devemos “pensar positivamente”? (...) Conselhos dessa ordem são fáceis de dar, e parecem promissores no papel; mas, no mundo real do desespero real, raramente têm capacidade de mudar algo”.
Recorro ao Ekhart Tolle - “Torne-se consciente do momento. Isso é profundamente gratificante de se fazer”. Em outras palavras, não adianta querer “dourar a pílula”. Nem dar uma de Pollyanna e querer jogar o “jogo do contente”, procurando ficar alegre com qualquer coisa que apareça. E para quem acha que ser otimista resolve o problema, cito o José Saramago: “Os únicos interessados em mudar o mundo, são os pessimistas, porque os otimistas estão encantados com o que já tem”.
Estamos todos com medo, tristes, ansiosos e acreditar em teorias otimistas para disfarçar o mal-estar reinante, pode parecer a saída. Ou um alarme falso. Das montanhas do Himalaia vem um conselho do Dalai Lama: “A capacidade de estar presente em cada momento é nada mais, nada menos que a capacidade de aceitar a vulnerabilidade, o desconforto e a ansiedade da vida diária”.
Encarar a realidade parece ser a melhor solução. Sem fantasias ou falsas teorias conspiratórias. “Estamos numa grande teia, onde a tristeza e a alegria influenciam tudo ao seu redor. Eu decidi não me conectar com estas dores tão coletivas, e fazer a minha parte, do que eu dou conta. Se eu puder ter uma conversa que traga esperança, alegria e motivação a uma pessoa, estarei no Caminho” (Laura Lobo).
Será que nesse “fim do mundo” ainda vamos encontrar um farol que nos ilumine? Acho que sim!! E essa luz tem nome e atende pelo nome de ESPERANÇA. “ Esperança é muito diferente de otimismo. (...) Escolher a esperança é dar um firme passo adiante em ventos uivantes (...). A esperança é o antídoto do desespero (...) O desespero nos faz encolher dentro de nós mesmos. A esperança nos envia para os braços dos outros” (Desmond Tutu)
Gosto do que escreveu Jules Heme:
“E quando a curva de contágio ceder e os governos anunciarem “CONSEGUIMOS”, por favor: não retorne à imortalidade, não vista novamente os trajes dos invencíveis e dos inquebráveis, dos que nunca sofrem. Não se esqueça do que sentiu, por favor. Seja para sempre vulnerável, continue cantando nas varandas, continue aplaudindo as senhoras da limpeza, os caixas do supermercado, as mães. Não se esqueça de que você é um ser humano, que você é frágil e finito. E cuide da vida, do planeta e de todos os seres do mundo até o dia da sua morte como se tivesse aprendido algo”.

João Allievi - Advogado e Consultor na área do Direito Ambiental e turismo sustentável; docente dos cursos de pós-graduação do SENAC/SP (2009), empresário com 26 anos de experiência em Ecoturismo; coautor do livro “Cavernas Brasileiras” (1980),
ex-presidente da Sociedade Brasileira de Espeleologia e do Instituto de Ecoturismo do Brasil; espeleólogo, fotógrafo, guia de montanha e caverna.




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