CIDADÃO DO MUNDO II – POR HUBERT VICENT


A morte de uma pessoa próxima me deu a oportunidade de voltar a essa bela ideia de Cidadão do Mundo. Esta é a morte da avó dos meus filhos, a minha sogra.
Ela cuidava regularmente dos meus filhos quando eram pequenos. Saía com eles em Paris, na estância balneária de Trouville (região da Baixa Normandia). Passava todas as manhãs com eles, visitavam todas as pessoas – dos frequentadores de clubes aos garis. Todos os conheciam no bairro. Compravam algo, trocavam algumas palavras, novamente compartilhavam algumas novidades e anedotas.
Meus filhos passaram a ter esse hábito, muito jovens, de conversarem com todos: a delicadeza da cortesia, coisas para consumir, palavras ou histórias para trocar. Os passeios à beira-mar ou em um distrito de Paris podem fornecer cenários interessantes: camarões ou caranguejos em um buraco de água, pombos voando em frente a um carro, pessoas adormecidas na rua.
Sendo pai, levado por negócios eminentemente sérios como eles dizem, nunca teria tido tempo para fazer isso. Gostaria que todas as crianças pudessem compartilhar esses passeios com seus avós. No entanto, isso me lembrou o que Montaigne falava sobre educação. Se ele reflete toda a educação de acordo com a troca (ou o comércio) com o mundo, há um aspecto desta educação em que esse autor diz: “Vamos ficar alertas para estar em uma empresa ou em qualquer outro lugar de grupos; devemos ter olhares em todos os lugares; as primeiras posições são comumente aproveitadas por homens menos capazes e as magnitudes da fortuna dificilmente estão envolvidas na complacência. Ela soará o porte de cada: um bebedor, um pedreiro, um transeunte; é necessário colocar tudo no trabalho e emprestar de cada um de acordo com sua mercadoria a trocar, pois tudo serve como uma casa; a mesma insensatez e fraqueza dos outros será sua instrução”.
Montaigne vivia em uma sociedade muito hierárquica: os nobres, os burgueses, a plebe, os sacerdotes. Isso não é muito diferente: fazemos distinções sociais e dividimos não só a sociedade, mas a nós mesmos, nossas percepções, nossos relacionamentos, de acordo com essas divisões sociais. Montaigne nos convidou para irmos além dessas divisões.
A avó de meus filhos fez exatamente isso! Não de propósito, ou em uma tentativa de educar seus netos – era seu hábito. Foi um prazer fazê-los caminhar e atravessar todo o seu conhecimento. Eles se acostumaram a conversar com todos, a cumprimentar a todos, a encontrar interesse em todos, a exercer seu julgamento e suas escolhas.
São raros os lugares onde nossos filhos podem aprender a estar em ambientes sociais muito diferentes. A escola, pelo menos na França, ainda é um desses lugares, mas não é para todos. Os locais de trabalho às vezes o são. Alguns festivais. Às vezes ainda alguns eventos ou shows de esportes. Muito poucos mesmo.
No geral, são raras as oportunidades e os lugares, e precisamos saber como preservá-los.
De qualquer forma, quando Montaigne fala sobre Cidadãos do Mundo, e quando nós falamos sobre Cidadãos do Mundo, temos que pensar sobre o significado dessa expressão – esse hábito de falar, trocar, ter prazer com os outros e aprender com qualquer pessoa, independentemente de seu contexto social. Não se convencer de que “todos são iguais” (o que é falso); nem na esperança de que essas diferenças sociais sejam abolidas (o que é vago), mas na ideia de que o valor das pessoas não depende da sua pertença a esse ou a outro meio.
Sem dúvida os Direitos Humanos garantem o respeito a toda pessoa, seja qual for o seu poder aquisitivo. Mas a pequena caminhada da avó de meus filhos permite ver o significado ao mesmo tempo concreto, difícil, raro de tal exigência. O hábito de falar, trocar, encontrar o bem com qualquer pessoa, além das diferenças sociais, riqueza e prestígio.
A Todos os Cantos faz isso e eu já comprovei quando estive no Brasil e também aqui na França.
Nota Michel Eyquem de Montaigne (28 de fevereiro de 1533 – 13 de setembro de 1592) foi jurista, político, filósofo, escritor, e humanista francês. Em suas obras analisou as instituições, as opiniões e os costumes, debruçando-se sobre os dogmas de sua época. O pensador criticou a educação, propondo um ensino voltado à experiência e à ação. Para ele, a educação deveria formar indivíduos aptos ao julgamento, ao discernimento moral e à vida prática.




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